Investigação, Desenvolvimento & Inovação

O Instituto Hidrográfico e a Capital do Mar

Lisboa é a capital do mar. Para este estatuto contribuem, entre outros aspectos, a posição atlântica, as condições naturais do seu porto, o passado histórico, o género de vida que proporciona a quem nela reside ou a visita, o património cultural que detém, as instituições que acolhe, e as actividades marítimas que promove.

O desenvolvimento destas actividades implica que, quem usa o mar, disponha de informação hidrográfica, cartográfica, de segurança da navegação e oceanográfica necessária à tomada de decisão eficiente e eficaz. Para responder a este requisito, Portugal dispõe do Instituto Hidrográfico (IH). Com sede em Lisboa, exerce funções e tem capacidades ímpares na aquisição, na análise, na gestão e na difusão daquela informação, contribuindo de forma relevante para a condição marítima da nossa cidade.

As linhagens de organizações antecedentes do IH levam-nos a 1834, quando foi retomada a organização permanente dos serviços hidrográficos nacionais, com a criação inicial de uma secção, constituída por oficiais da Marinha e integrada na Comissão da Carta Geográfica do Reino. Em 1851 foi estabelecido o serviço hidrográfico da Marinha, com a designação de Repartição Hidrográfica do Conselho do Almirantado. Entre 1912 e 1960 este órgão tornou-se membro do Bureau Hidrográfico Internacional e assumiu a designação de Direcção de Hidrografia, Navegação e Meteorologia Náutica. Também foram organizadas a Missão Hidrográfica da Costa de Portugal e as Missões Hidrográficas das Colónias. Em 1960 foi criado o IH, que reuniu, num só, os organismos hidro-oceanográficos dispersos pelos Ministérios da Marinha e do Ultramar. A partir de 1974, fruto da alteração das circunstâncias políticas do país, o IH adequou-se à nova realidade geográfica e marítima de Portugal, e ampliou as suas capacidades e actividades para novas áreas técnico-científicas.

Hoje, o IH, como órgão da Marinha e Laboratório do Estado, tem por missão desenvolver produtos de informação e apoiar actividades relacionadas com as ciências e técnicas do mar, tendo em vista a sua aplicação militar, científica e ambiental.

Para isso, adquire diariamente uma grande quantidade de dados no mar, quer através de levantamentos hidrográficos sistemáticos, para actualização cartográfica, quer com recurso a vários sistemas de aquisição de dados ambientais localizados, como sejam as bóias ondógrafo, os marégrafos, as estações meteorológicas, os radares costeiros de observação de correntes superficiais ou as cadeias de correntómetros. Neste esforço de aquisição participam uma brigada hidrográfica, uma equipa de engenharia oceanográfica e os navios hidrográficos da Marinha.

A análise, a gestão e a difusão dos dados sobre o mar, bem como a previsão dos fenómenos oceanográficos são feitas por pessoal qualificado e experiente, com recurso a modernos laboratórios, a sofisticados modelos matemáticos, à maior base de dados nacionais de observação do oceano, a um sistema de informação dedicado, e a um serviço de atendimento ao utilizador.

Em conjunto, são as capacidades antes enunciadas que permitem a exploração da informação adquirida e produzida pelo IH, no apoio às operações navais e policiais-marítimas, à investigação científica, à previsão dos fenómenos naturais, ou às múltiplas actividades da “Economia Azul”. Neste último caso, com ênfase especial no dimensionamento das obras marítimas, no roteamento oceanográfico dos navios, na exploração de inertes, na selecção dos locais para a implantação dos sistemas de energias renováveis, no exercício da pesca, no apoio às actividades náuticas e na segurança da navegação.

O IH segmenta a sua actividade em quatro grandes áreas transversais: a caracterização ambiental de base e climatologia (v.g. o conhecimento da batimetria, dos sedimentos superficiais do fundo ou da climatologia das ondas); a monitorização do ambiente marinho (v.g. conhecimento dos parâmetros físicos, químicos e geológicos); a previsão oceanográfica operacional (v.g. a previsão de marés, das correntes, da agitação marítima ou da rebentação das ondas); e a investigação científica aplicada. Os produtos resultantes das actividades desenvolvidas nestas áreas aplicam-se, especialmente, ao planeamento e à realização de operações navais, incluindo o factor ambiental na decisão do comando. Importam, igualmente, para o apoio à actividade policial-marítima, na análise de provas de poluição do mar e no apoio à segurança da navegação e a situações de calamidade.

Em âmbito nacional, o IH está envolvido em vários projectos de investigação científica e de desenvolvimento tecnológico (I&D), vocacionados para o estudo e caracterização do ambiente marinho, essenciais para o apoio às políticas públicas associadas às ciências do mar e às acções preconizadas na Estratégia Nacional para o Mar. Salienta-se, particularmente: a transferência inicial de conhecimento e o apoio técnico e naval proporcionado à Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental no projecto de alargamento da plataforma continental; a implementação de um sistema de observação multidisciplinar do mar na ZEE nacional; a manutenção da única escola nacional de formação em hidrografia, aberta à sociedade civil.

A nível internacional o IH também contribui para o conhecimento do mar, através da participação em projectos multidisciplinares dinamizados pela União Europeia, da participação nas actividades da Organização Hidrográfica Internacional e da Associação Europeia de Oceanografia Operacional (EUROGOOS) e, bilateralmente, como os países de língua oficial portuguesa, o Reino Unido e a França. Para além disso, o IH colabora em projectos europeus de longo prazo, nomeadamente a EMODNET (rede europeia de observação e de dados marinhos), e a SEADATANET (infra-estrutura europeia para a gestão de dados do oceano e do ambiente marinho), que visam identificar os dados disponíveis em muitas organizações sobre o meio marinho, assim como desenvolver uma infra-estrutura para a sua partilha e reutilização.

A inovação foi sempre uma preocupação relevante do IH. No momento actual, é no âmbito do apoio ao Comando Naval e à Direcção-Geral da Autoridade Marítima, que o IH está a ampliar capacidades de previsão meteo-oceanográfica, tendo em vista potenciar o desempenho operacional daqueles organismos. Porém, alguns desses produtos e serviços estão já a ser adaptados para apoiar várias actividades desenvolvidas pela comunidade civil, como acontece com o serviço público de previsão das condições para a prática do surf, que é o exemplo mais recente do contributo do IH para a economia marítima nacional.

O IH tem o mar como vocação e o conhecimento na acção. Com uma longa experiência e acervo científico, conta com o reconhecimento da comunidade internacional, como sendo uma referência pela formação de alto nível que proporciona aos seus recursos humanos, pelas capacidades multidisciplinares que possui, e pela utilização das mais recentes tecnologias e práticas.

É com este invulgar património de experiências e de competências que o IH dá um contributo relevante para o desenvolvimento e sustentabilidade das actividades marítimas nacionais e internacionais e, consequentemente, para Lisboa ser, justamente, considerada a capital do mar.

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